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17 setembro 2012

CONHEÇA A ORAÇÃO DA SERENIDADE


“Senhor, conceda-me serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras”.
Em 1992, eu passei aproximadamente setenta e duas horas fazendo essa oração o tempo todo, mexendo os lábios, repetidamente, espasmodicamente. Foi a única forma que encontrei de não enlouquecer, fui meio que salvo por ela, eu estive andando no fio da navalha. Beto, vinte e tres anos.  meu filho caçula do primeiro casamento, sofrera um acidente e ficou em coma durante esse tempo num hospital da zona sul de São Paulo, até morrer na tarde do quarto dia.
         Essa oração me acompanha diariamente nos últimos vinte e sete anos de minha vida. Ela me foi apresentada por um amigo logo que cheguei de mudança para São Paulo, vindo de minha última internação por alcoolismo, que me disse o seguinte: Zé, para não voltar a beber você tem que deixar de ser o ZéRoberto que tinha que beber para viver; e essa oração é a chave das mudanças interiores que precisam acontecer  em você.
         Eu achei a oração uma beleza, fiquei mesmo, de cara, muito impressionado com ela e a fazia  com o coração. Só que não entendi nada, não fazia a mais remota idéia de quais eram as coisas que podia e quais as que não podia modificar. Não via nenhum problema em mim, na via nenhum defeito, minha única dificuldade era a bebida e drogas, era sincero nessa cegueira. Ouvia frases como “o problema não está na garrafa, está em você”, ou “o problema não é parar de beber, o problema é como não voltar a beber” e nada compreendia. Sempre fiz pose de um cara culto, um literato falido, tinha muita leitura, nas madrugadas meus discursos tinham mais sabedoria que Sócrates e Aristóteles juntos. Isso tudo, porém, de nada me adiantou, na hora de olhar para dentro de mim eu estava cego. Na frente de meu coração tinha um muro de concreto.
         Passaram-se meses, até que primeiro clarão, a primeira brecha no concreto aconteceu dentro de uma igreja, por incrível que pareça, logo eu. Nos últimos anos de minha primeira vida, quando a situação já estava bem preta, às vezes entrava em igrejas ou templos que estivessem abertos, de preferência vazios. Gostava da penumbra, do silêncio, parecia que se acalmavam um pouco meus barulhos, meus tumultos emocionais, ficava lá sentado, quieto, cabeça baixa, respirando aquela paz. Pois nesse dia, com dois meses sem beber nem usar, estava andando sem rumo pelas ruas de São Paulo, arrasado com a derrota do Brasil na Copa de 1982, quando lembrei-me daquele hábito e entrei na primeira igreja que achei aberta. Dei azar, estava tendo uma missa, acho, com bastante gente, fiquei com vergonha de sair. Fui ficando, meio atrapalhado, até a hora dos cumprimentos entre as pessoas. Assustado, meio que me escondi atrás de uma coluna. Foi nesse momento que me bateu o clarão. E eu pensei ou ouvi algo, sei lá: “Zé, você tem que aceitar que não pode beber”. À primeira vista, isso pode parecer uma grande tolice, mas na hora não foi, na hora isso soou para mim como um grande consolo, trouxe um grande alívio. Hoje até entendo o que aconteceu. Veja bem, depois de tudo o que tinha passado, é claro que sabia, no meu intelecto, no meu cérebro, que não podia mais beber. O meu coração, porém, ainda não sabia, ainda não tinha sentido isso. E, meu amigo, enquanto o coração não sente, nada de importante acontece em sua vida. Naquele exato momento, atrás da coluna, o meu coração foi atingido pela notícia. Aí, sim, foi que as coisas começaram a acontecer, e as gastas engrenagens de minha vida começaram novamente a girar.
         A segunda coisa, na verdade foram duas, e aconteceram bem depois. Meu coração encaixou, primeiro, que eu só podiamodificar a mim mesmo e, segundo, que eu tinha que aceitar as outras pessoas exatamente como elas eram. Todas, e amá-las, ainda por cima, incondicionalmente. Inclusive aquela de quem você está se lembrando agora e fazendo uma careta. Isso, para mim, aliás, foi uma grande surpresa. A minha vida inteirinhazinha eu tentei modificar os outros. Sempre soube, em detalhes, quais eram os defeitos das pessoas que me cercavam e tudo que elas tinham que fazer para corrigi-los. Quando me disseram que eu tinha que fazer isso somente comigo, fiquei estupefato. Sempre achei que, para eu ser feliz,  todas as outras pessoas do mundo teriam que fazer um curso e ser permanente e exaustivamente orientadas sobre a melhor forma de agir comigo, meus gostos, preferências, minhas manias e tudo, para eu ser feliz. No mínimo todas as pessoas da minha cidade.
         Com essa oração, aprendi que eu e a maioria das pessoas sofrem e se preocupam mais com as coisas que não podem modificar, que teriam que aceitar, simplesmente. O próximo, por exemplo. Vivo querendo dar lição nas pessoas. Ontem, numa avenida daqui, uma motorista andando devagarinho na pista da esquerda, não me deu passagem de jeito nenhum, parecia pregada ali no chão, eu a ultrapassei pela direita, furioso, olhando feio, quase atropelei um cachorro e ainda passei reto na rua que ia virar. Com relação à minha mulher, outro exemplo. Não tenho nenhuma ação sobre as atitudes dela, e de nenhuma outra pessoa, para ser bem exato, mas sofro bastante por isso.  E vivo tentando interferir no jeitão dela. Toda vez que faço isso, ou aponto o dedo, querendo mostrar algum erro e, de leve, aproveitando para puni-la, ela começa a cantar músicas de louvor a Deus. Antigamente, quando não tínhamos uma igreja, ela assoviava. Hoje, canta. Acabo de falar e ela “Deus, somente Deus...”.  
         Na verdade, no duro no duro, só tem duas coisas que são a razão de eu e você vivermos esta vida: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a mim mesmo. Com serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, com coragem para modificar aquelas que eu posso e com sabedoria para distinguir umas das outras.
 Tenho essa oração num banner de um metro de altura, letras brancas em fundo azul, pregado na parede de meu escritório aqui no fundo de casa, presente de um casal de amigos. Tenho desde 1995, nessa época nem sabia direito para quem orava. Toda manhã entro no escritório e praticamente trombo com o banner e essas palavras são sempre as primeiras que falo para Deus, em minhas orações. Serenidade, coragem, sabedoria. Só por hoje.